domingo, 2 de maio de 2021

A casa da minha meninice: quando infância era ser menina

Imagem com a gata Maria Eugênia apresentando o conteúdo "A casa da minha meninice: quando infância era ser menina"
Este conteúdo retrata um instante de meu tempo de menina.  A visão primeira
da casa e da rua de minha infância nada perdida. Um mergulho em meu passado na reconstrução de mim mesma.

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A CASA DA MINHA MENINICE

QUANDO INFÂNCIA ERA SER MENINA

 

 A MESA NO MEIO DA SALA E O CAMINHO NO MEIO DO MATO 

Era uma casa tosca um tanto quanto no meio do mato. A casa da minha infância que nem infância era. Era a minha meninice. A casa do meu ser menina então. Do lado de dentro, uma sala de chão batido como se fosse única. Uma mesa desnuda no meio da sala. Sobre ela um amontoado de coisas. Ao lado dela uma porta que hoje eu sei. Era a porta do quarto das mulheres. Do lado de fora, uma fileira de pedras com ares de calçada se alongava ao pé da parede como a proteger numa barricada. A parede parecia não menos tosca do que a sala lá dentro. Em frente à porta, duas ou quatro pedras se distribuíam em degraus como a preparar a subida de quem entrava. Ou a descida de quem saía. 

Começando nas pedras enfileiradas, podia-se observar um extenso vão de chão varrido a manter os matos afastados da casa. Era o terreiro da frente da casa. Um terreiro regado a vassouras a se estender até a rua que passava ali em frente. Rua era só um modo de dizer para não dizer um caminho meio enviesado. Um caminho que parecia naturalmente aprimorado nas pedras. Mas logo se perdia de vista de um lado e do outro. Fugia de meus olhos entre os galhos retorcidos que teimavam em se esparramar para dentro da viela tosca. Logo mais adiante depois do seu atravessar, só o verde das árvores a também se perder de meu olhar. A ganhar um rumo que eu nem sabia. Mas via que se findava no encontro com o céu num horizonte que de tão longe eu nem atinava.

Dentro de casa, eu me erguia na ponta dos pés à procura de alguma coisa. Com uma mão, eu me apoiava à mesa enquanto a outra parecia se perder em meio ao amontoado de coisas sobre ela. Talvez procurasse algum copo. Certamente procurava algum copo, pois logo depois eu estava na porta jorrando água boca a fora numa cusparada sem medida. O sabor era de carne crua. Minha mão esfregava um canto a outro da boca como a livrá-la daquele sabor. O copo ainda se mantinha preso à outra mão. Meu olhar o fixava insistentemente como a censurá-lo por aquele infortúnio. Não entendia o porquê daquele sabor. A repulsa e o nojo era o que me ocorria.

Mas minha atitude intempestiva parece ter provocado a minha mãe. Ou teria sido outra pessoa? Desse saber de nada eu sei. Mas sei da repreensão sofrida. Uma atitude que me fizera recolocar na mesa o copo com sabor de carne crua. Alguém me censurara por meu ato desmedido. Repreendera-me veementemente. Com certeza um despropósito aquela cusparada aos olhos das pessoas mais velhas de casa.    Aos olhos delas eu teria passado muito vexame por pouca coisa. Afinal, que mal me faria aquela água com sabor de carne crua?

Então nada me restava senão seguir para a porta e de lá observar o mundo lá fora. O mundo que não ia além dos matos a se perderem de minha vista num acolá não tão distante. Que se iniciava naquelas pedras ao pé da parede e atravessava aquele terreiro regado a vassouradas. Que se perdia de meu olhar logo ali de um lado e do outro do caminho enviesado e ladeado de matos. Mas era o mundo que me aprazia na porta onde eu estava. Certamente eu me deleitava naquelas cenas sob os meus olhos pela primeira vez.

Não fazia muito tempo que eu estava numa calçada à beira de uma rua. Como lá, eu não sabia também dos paradeiros do cenário que via. Era ainda a minha mesma existência ainda tão frágil. De um momento sozinha numa calçada eu me via então dentro de casa no limiar de uma porta. Nem nevoeiro havia. Nem sol. Só o meu olhar vagando em busca dos meus novos aprendizados. Mas de uma coisa eu já dava conta. Havia uma casa. E nela eu estava do lado de dentro. Havia gente que se preocupava comigo e me repreendia.

Mas do resto só o tempo me diria. Somente o tempo no seu transcorrer. No seu transmutar todas as coisas. Também possíveis marcas que me deixaria. Marcas cujo tempo no seu transmutar me faria entendê-las quando as buscasse em minhas recordações. Então mais uma vez eu teria que esperar o passar do tempo para as minhas respostas.  As respostas àquela vivência que de tão frágil não ia muito além daquele caminho em frente a minha casa. A casa da minha infância onde eu passaria a minha meninice. A minha meninice. Disso eu dava conta.


REMINISCÊNCIAS: EM BUSCA DO MEU SER MENINA 

O tempo voou a asas largas. Encurtou distância entre o meu instante no limiar daquela porta e aquele na minha janela para o mundo. O mundo que se alongava para além do lado de dentro do muro. Que se lançava ao longe ora nas linhas de escritos diversos, ora nas asas de minhas recordações, ora na força da minha imaginação. Mas de qualquer que fosse o ângulo, eram vivências que ganhavam forma nas linhas e na força do meu pensamento. Vivências embaladas no balançar da rede que rangia e se revolvia a cada empurrar do pé na parede. O pontapé cuja força lançava a rede no ar no mesmo ir e vir da minha memória em busca de mim mesma. Dos meus perdidos na estrada da vida.

Numa sucessão de imagens eu me deparo em meio àquelas minhas primeiras vivências. Reminiscências em resgate. Aquelas que dão conta de mim no meu principiar na estrada da vida. Uma sala de chão batido e uma mesa cheia de coisas. O copo e a água com sabor de carne crua. A cusparada à porta da rua. A repreensão pelo ato sem medida. Meus instantes primeiros na minha nova casa. A casa da minha infância. Do meu ser menina.  A casa cujas pessoas não se mostraram à minha memória. Como na calçada, lá também não vi pessoas. As pessoas da minha vida demoravam a entrar nas minhas lembranças. Embora sabendo que elas compunham aqueles cenários, não ganhavam forma. Embora sabendo que talvez fosse minha mãe a me repreender, dela eu não lembro. Não naquela vivência.

Mas quando a memória não dava conta, eis que a minha imaginação tomava assento. O porquê da água com sabor de carne crua. Então eu sabia. Não restavam dúvidas. Na viagem, carnes e teréns da cozinha haviam se misturado. Lembrar eu não lembro. Mas minha mãe certamente havia depenado o galinheiro e estrebuchado algum porco ou bode para se deixarem transportar sem reclames. Ou teria sido apenas o galinheiro pela ausência mesma de bichos maiores? Ou teria sido engenho de minha avó Aiá para suprir necessidades de minha mãe? Afinal, zelo de mãe é cuidado que não se acaba. Ainda mais quando sabe que há netos e netas envolvidos e envolvidas.

De tais vivências de nada eu atinava. Era menina demais para o saber. O certo é que bichos haviam sido mortos. Mortinhos da silva. Até consegui ver os olhos arregalados deles diante da atrocidade que lhes findara a vida. Arregalados sem ver. Sem sentir. Sem saber que suas vidas foram finitas antes mesmo de tomarem a estrada da mudança de casa. Até consegui ver seus corpinhos retalhados e espremidos em algum saco. Ou nalguma cesta. Um e outro disputando um lugar no jacá com as demais coisas da casa. No jacá, onde os teréns com certeza se misturaram na hora da partida. Então não era difícil saber o porquê do copo tornando a água com gosto de carne crua. Ele com certeza fora parar naquele jacá onde se juntaram tudo o quanto era coisa pequena.

Até eu própria devo ter parado lá. Imagine eles então! Retalhos de carne prontos para guloseimas como rumo mais certo. Quisera a minha sede de água que eu fosse a primeira a sentir o gosto deles. Sabor de carne crua naquele copo d’água que me ocorrera saciar a sede. Que fizera pular em seu peito a repulsa e o nojo. Mas também o agir ligeiro de despejar boca a fora. Certamente tão logo finquei os pés naquela sala de chão de terra batida. Meu primeiro ato na minha nova casa. Lembranças vagas, imagens opacas, mas bem preservadas na minha memória.

Então eu sabia. Minhas reminiscências me diziam. Aquela mesa não estava sozinha naquela sala. Havia uma bilheira ao lado da porta da rua. A porta de quem chegava e de quem saía por uma descida e subida sedimentada de pedras. Era o degrau ao qual se ligava o batente da porta. A bilheira que acomodava os potes de beber na sua base e os copos em apoios superiores. E ficava logo ali ao lado da porta que dividia os dois lados da casa. De um lado, uma pequena sala vazia seguida de um quarto de frente para o outro. Fora isso, a cozinha de onde se seguia para o quintal.

Mas então em vez do quintal meu rumo foi a porta da rua. A porta de chegada à minha casa. O mesmo vestido de outrora à mesa na ponta dos pés. Daquela porta eu olhando a cena em frente à casa. A minha nova casa. Imagens fugazes de pedras formando o batente à entrada da porta. Outras se estendendo ao longo da parede como num desejo meio acanhado de protegê-la. O terreiro que se alongava para além daquelas pedras como a proteger os arredores da casa. A rua que se estendia em seu curso meio escondida entre um mato e outro. A minha nova casa no subúrbio da cidade. Ali onde o urbano ainda não chegara.

Então eu sabia. Aquele era o meu primeiro olhar diante do meu novo mundo. Aquele que cabia todinho no limite que meus olhos alcançavam. Um mundo que colocava minha casa numa região de mato e terreno pedregoso. De horizonte limitado a um amontoado de galhos e folhas às margens do caminho. Um caminho meio íngreme cuja passagem em frente à minha casa me fazia crer que por ele não se ia muito além da porta onde naquele momento eu me encontrava.

Naquela minha pouca idade, porém, eu jamais poderia imaginar o quão longe me levaria aquele caminho. E quantas e muitas vezes ele me levaria e traria de volta sã e salva das minhas andanças pelo meu mundo afora. Ainda que no fim das contas esse mundo não passasse das minhas idas e vindas por outros caminhos não tão distantes daquele lugar. Lugar que não demoraria muito para eu chamar de meu. O meu bairro. Um bairro no subúrbio. Da mesma forma, o meu mundo não passasse das minhas idas e vindas por outras ruas e percursos da cidade que logo eu chamaria de minha. O meu mundo afora do meu caminhar e do meu viver.


Você terminou de conhecer o segundo conteúdo do caminho Memórias de Mim.

Espero que tenha gostado e acompanhe os conteúdos seguintes.

A você, meus agradecimentos!

Deus esteja com você!

Sônia Ferreira

Teresina, 02 de maio de 2021.


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Maria Eugênia: a guia de conteúdo do caminho Memórias de Mim.




 


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