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domingo, 16 de maio de 2021

Meu irmão Elói e o vento bom de papagaio

 

Imagem com a gata Maria Eugênia apresentando o conteúdo "Meu irmão Elói e o vento bom de papagaio".
Este conteúdo é mais um retrato do meu tempo de menina. Eu e meu irmão Elói em instantes eternizados em minhas lembranças. Afagos na alma.


MEU IRMÃO ELÓI E O VENTO BOM DE PAPAGAIO
 

 

MANHÃ DE VENTO BOM

Aquela era uma manhã de vento bom. Uma manhã boa de papagaios no ar. O vento soprava de um jeito que não ia demais nem vinha de menos. Do jeito que as pipas gostavam. Do jeito que os meninos gostavam ainda mais. Um jeito que só aquele vento bom de papagaios sabia como os manter plainando a uma altura de arregalar os olhos. Ainda que aqueles olhos fossem apenas os olhos dos meninos. Ainda que fossem apenas os olhos de meu irmão Elói. Mas não eram tão somente. Eram os olhos da meninada daqueles tempos.

Eu sempre sabia quando uma manhã era boa de empinar pipas, que a gente conhecia tão bem como papagaios. Não apenas pelo soprar do vento lá fora a me dizer manhã de vento bom. Mas pelo adentrar desenfreado de meu irmão Elói à nossa casa. Quando eu o via chegar com o papel seda e as talas na mão à procura de goma e colher para fazer a cola grude. Então eu sabia. Aquela era sem dúvidas uma manhã de vento bom. Manhã boa de papagaios daquelas que o vento soprava a favor. Tanto que Elói já se preparava para ela. Então eu já não seria dona de mim. Não naquela manhã. Não enquanto durasse aquele vento bom de papagaios. Não enquanto Elói não estivesse puxando a linha de sua pipa no ar.

MEU IRMÃO ELÓI: NO SEU BRINCAR O MEU AJUDAR

Eu poderia estar logo ali no terreiro da cozinha brincando de casinha. Ou ajeitando alguma roupinha dos bibis em seus corpinhos frágeis. Não importava muito o que eu estivesse fazendo. Não numa manhã boa de empinar papagaios. Meu irmão Elói sempre me tirava de minhas coisas para ajudar ele nas suas. Podia ser o que fosse, eu logo deixava de lado e corria para ele. As coisas dele sempre pareciam ser de muita necessidade e de muita urgência. As minhas podiam esperar.

E diante do vento bom daquelas manhãs não havia necessidade maior do que preparar as talas e o papel seda. E logo depois ver o papagaio pronto pegar o vento e ganhar alturas.  Voar no céu de nosso subúrbio entre uma pirueta e outra a encantar os olhos. Empinar a pipa dos meninos que naquele tempo a chamavam de papagaio. Pelo menos os meninos que com o meu irmão Elói se encontravam na rua em frente a nossa casa para empinar os seus. Cada qual com suas cores.

Então não havia ninguém melhor do que eu para o ajudar a preparar a armação. A colocar tala sobre tala para receber o papel seda. A seda de pipa. E Elói sabia disso. Então lá vinha ele com a armação apontada para mim: segura aqui, dizia. E lá estava eu segurando firme as talas enquanto ele as fixava uma sobre a outra até as deixar no ponto da seda. Então era a hora da cola grude para segurar o papel seda. E lá eu continuava para o ajudar nos arremates finais. Só faltavam o rabo e a linha para ele ganhar a rua com o seu papagaio pronto para empinar. Então ele esperaria o melhor vento para o voo preciso. E logo seria mais uma pipa a piruetar no ar, a tomar o caminho das nuvens enfeitando o céu daquela manhã de vento bom.

Era comigo que meu irmão Elói sempre contava nas suas coisas para fazer. E não lhe faltavam coisas para fazer. Não em seu tempo de menino. Eram tantas as coisas que o tempo parecia se dividir em vários só para o atender. Tempos de empinar papagaios. Tempos de jogar petecas e triângulos. Tempos de jogar castanhas. E em todos os tempos, tempo de baladeiras e arapucas.

Os tempos dele de brincar eram também os meus tempos. De tanto o ajudar em suas tarefas de brincar, suas brincadeiras de menino terminaram sendo as minhas brincadeiras também. Intercaladas com o meu brincar de boneca e de casinha. Quase sempre interrompidas pela ajuda às coisas dele.

 ENTRE OS VOOS DO "PAPAGAIO" E AS QUEDAS DA CURICA

Mais uma vez eu estava com ele na sala de visitas de nossa casa. Uma sala logo à entrada da porta. Sobre o chão de barro batido estávamos nós debruçados entre talas e papéis esparramados pelo chão. Ele no aprontar do seu papagaio. Eu na sua ajuda costumeira. Mas entre um segurar e outro eu tentava dar forma à minha curica. Fazia valer o ditado que eu aprendera talvez desde então. Quem não tem cão caça com gato.

Não havia quem fizesse meu irmão Elói fazer um papagaio para mim. Por mais que eu lhe pedisse. Nem sequer deixava eu dar uma voltinha com o dele. Uma voltinha no ar. Nem sequer pegar direito. Eu só servia para segurar uma pontinha aqui outra acolá. Eu só servia para ajudar. Então não havia outro jeito senão eu mesma fazer minha curica. Uma armação à lá papagaio. Mas não com a mesma robustez. Nem com as mesmas cores. Muito menos com a imponência de quem sabe se aventurar no ar. De quem sabe se agarrar às asas do vento e alcançar os céus. Nada disso podia se ver na minha curica. Até porque em vez do papel seda fina era a folha grossa de caderno que lhe revestia a armação.

Então naquela manhã o vento soprava do jeito que os papagaios gostavam. Daquele jeito que os mantinha rodopiando nas alturas de um lado a outro. Do jeito que lhes fixava à linha reta e os deixava como parados no ar. Elói lá estava no meio dos meninos empinando o seu. Logo ali na rua que passava em frente à nossa casa. A rua meio tortuosa de pedras pelo meio e matos ladeados. Arbustos que se erguiam a meio metro de altura e logo envergavam seus galhos rumo ao chão.

Mas era sobre aqueles arbustos que eu terminava parando em busca de minha curica. Ela insistia em não ganhar altura. Por mais que o vento soprasse e fizesse os papagaios dos meninos alcançarem os céus. Por mais que eu corresse puxando a linha que a prendia. Não havia jeito. Era o chão que ela buscava. Era o mato à beira do caminho que quase sempre a acolhia. 

Com a minha curica na mão, eu olhava aqueles papagaios no mais alto dos céus. Papagaios com ares de pipa. Mas não entendia aquele despropósito de minha curica não passar do chão. Não passar dos arbustos retorcidos que quase encobriam o caminho. Olhava meu irmão Elói no empinar do seu papagaio. Via como ele movimentava rápido a linha à sua mão num puxar e repuxar de um vai e vem sucessivo de alto a baixo. Talvez acreditasse que o segredo estivesse na sua habilidade de movimentar a linha. Mas como saber? Era a minha idade talvez tão pueril que só o tempo talvez me dissesse.

Mas então em observando aqueles papagaios no ar, eu tentava compreender também o ato de ver longe. Tentava entender a capacidade dos olhos de enxergar o distante. E saber se os outros também enxergavam. Assim como eu. Então me voltei para minha irmã Milca e lhe perguntei se ela via aqueles papagaios com suas piruetas no céu. Ela me respondeu que sim. Mas talvez de uma forma que não me convenceu. Tanto que lhe perguntei novamente apontando para o alto e lhe mostrando as pipas lá quase no meio das nuvens. Ela me respondeu aborrecida com voz meio gritante que via porque não era cega. E logo saiu correndo se afastando de mim. Creio que fosse minha irmã Milca, porque Taelma ainda era pequena demais para entender das coisas dos meninos grandes. Nem das meninas. Ainda mais quando essas coisas tinham a ver com pipas no ar.

REMINISCÊNCIAS: A MENINADA DA NOSSA CASA

Mais uma vez, eu e meus resgates de mim mesma. Vivências que minha memória não apaga. Graças a Deus! Não que eu me apegue às lembranças que lhes dão forma. Mas que estão lá sempre que preciso. Cada qual no seu escaninho. Recôncavos da memória prontos a se abrirem ao resgate de alguma vivência lá guardada. Reminiscências do meu tempo de menina.

Mais uma vez eu na minha janela para o mundo. De lá me deparei com meu irmão Elói com o seu jeito irrequieto de ser; sempre em movimento; sempre em busca de algo para fazer. Sempre fazendo alguma coisa. Então o vejo no seu entrar e sair. No seu chegar e logo ir de novo. No seu parar próximo a mim para me pedir algo; para pedir que lhe fizesse alguma coisa. Então me vejo a seu lado em muitas das suas brincadeiras. Não que ele brincasse comigo. Eu é que brincava a seu lado enquanto o ajudava em alguma coisa.

Em nossa casa, éramos quatro chamados de menino e meninas. Nossas idades certamente nos dividiram em duas duplas. Eu e Elói éramos os mais velhos e por isso nos aproximamos mais. Milca e Taelma, as mais novas, mais se identificaram e se aliaram nas brincadeiras conjuntas. Enquanto as duas seguiam com suas casinhas de boneca, eu seguia mais com Elói nas brincadeiras dele que terminavam minhas. Então foi fácil aprender brincadeiras de meninos sem esquecer as roupinhas e as casinhas das minhas bonecas.

A você, meus agradecimentos!

Deus esteja com você!

Sônia Ferreira

Teresina, 16 de maio de 2021.

Você terminou de conhecer o terceiro conteúdo do Caminho Memórias de Mim.

Espero que tenha gostado e acompanhe os conteúdos seguintes.


Imagem com a gata Maria Eugênia convidando leitores e leitoras para se inscreverem no blog e o seguir.
Maria Eugênia: a guia de conteúdo deste caminho Memórias de Mim.


domingo, 2 de maio de 2021

A casa da minha meninice: quando infância era ser menina

Imagem com a gata Maria Eugênia apresentando o conteúdo "A casa da minha meninice: quando infância era ser menina"
Este conteúdo retrata um instante de meu tempo de menina.  A visão primeira
da casa e da rua de minha infância nada perdida. Um mergulho em meu passado na reconstrução de mim mesma.

Você está no segundo conteúdo do caminho Memórias de Mim. 

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A CASA DA MINHA MENINICE

QUANDO INFÂNCIA ERA SER MENINA

 

 A MESA NO MEIO DA SALA E O CAMINHO NO MEIO DO MATO 

Era uma casa tosca um tanto quanto no meio do mato. A casa da minha infância que nem infância era. Era a minha meninice. A casa do meu ser menina então. Do lado de dentro, uma sala de chão batido como se fosse única. Uma mesa desnuda no meio da sala. Sobre ela um amontoado de coisas. Ao lado dela uma porta que hoje eu sei. Era a porta do quarto das mulheres. Do lado de fora, uma fileira de pedras com ares de calçada se alongava ao pé da parede como a proteger numa barricada. A parede parecia não menos tosca do que a sala lá dentro. Em frente à porta, duas ou quatro pedras se distribuíam em degraus como a preparar a subida de quem entrava. Ou a descida de quem saía. 

Começando nas pedras enfileiradas, podia-se observar um extenso vão de chão varrido a manter os matos afastados da casa. Era o terreiro da frente da casa. Um terreiro regado a vassouras a se estender até a rua que passava ali em frente. Rua era só um modo de dizer para não dizer um caminho meio enviesado. Um caminho que parecia naturalmente aprimorado nas pedras. Mas logo se perdia de vista de um lado e do outro. Fugia de meus olhos entre os galhos retorcidos que teimavam em se esparramar para dentro da viela tosca. Logo mais adiante depois do seu atravessar, só o verde das árvores a também se perder de meu olhar. A ganhar um rumo que eu nem sabia. Mas via que se findava no encontro com o céu num horizonte que de tão longe eu nem atinava.

Dentro de casa, eu me erguia na ponta dos pés à procura de alguma coisa. Com uma mão, eu me apoiava à mesa enquanto a outra parecia se perder em meio ao amontoado de coisas sobre ela. Talvez procurasse algum copo. Certamente procurava algum copo, pois logo depois eu estava na porta jorrando água boca a fora numa cusparada sem medida. O sabor era de carne crua. Minha mão esfregava um canto a outro da boca como a livrá-la daquele sabor. O copo ainda se mantinha preso à outra mão. Meu olhar o fixava insistentemente como a censurá-lo por aquele infortúnio. Não entendia o porquê daquele sabor. A repulsa e o nojo era o que me ocorria.

Mas minha atitude intempestiva parece ter provocado a minha mãe. Ou teria sido outra pessoa? Desse saber de nada eu sei. Mas sei da repreensão sofrida. Uma atitude que me fizera recolocar na mesa o copo com sabor de carne crua. Alguém me censurara por meu ato desmedido. Repreendera-me veementemente. Com certeza um despropósito aquela cusparada aos olhos das pessoas mais velhas de casa.    Aos olhos delas eu teria passado muito vexame por pouca coisa. Afinal, que mal me faria aquela água com sabor de carne crua?

Então nada me restava senão seguir para a porta e de lá observar o mundo lá fora. O mundo que não ia além dos matos a se perderem de minha vista num acolá não tão distante. Que se iniciava naquelas pedras ao pé da parede e atravessava aquele terreiro regado a vassouradas. Que se perdia de meu olhar logo ali de um lado e do outro do caminho enviesado e ladeado de matos. Mas era o mundo que me aprazia na porta onde eu estava. Certamente eu me deleitava naquelas cenas sob os meus olhos pela primeira vez.

Não fazia muito tempo que eu estava numa calçada à beira de uma rua. Como lá, eu não sabia também dos paradeiros do cenário que via. Era ainda a minha mesma existência ainda tão frágil. De um momento sozinha numa calçada eu me via então dentro de casa no limiar de uma porta. Nem nevoeiro havia. Nem sol. Só o meu olhar vagando em busca dos meus novos aprendizados. Mas de uma coisa eu já dava conta. Havia uma casa. E nela eu estava do lado de dentro. Havia gente que se preocupava comigo e me repreendia.

Mas do resto só o tempo me diria. Somente o tempo no seu transcorrer. No seu transmutar todas as coisas. Também possíveis marcas que me deixaria. Marcas cujo tempo no seu transmutar me faria entendê-las quando as buscasse em minhas recordações. Então mais uma vez eu teria que esperar o passar do tempo para as minhas respostas.  As respostas àquela vivência que de tão frágil não ia muito além daquele caminho em frente a minha casa. A casa da minha infância onde eu passaria a minha meninice. A minha meninice. Disso eu dava conta.


REMINISCÊNCIAS: EM BUSCA DO MEU SER MENINA 

O tempo voou a asas largas. Encurtou distância entre o meu instante no limiar daquela porta e aquele na minha janela para o mundo. O mundo que se alongava para além do lado de dentro do muro. Que se lançava ao longe ora nas linhas de escritos diversos, ora nas asas de minhas recordações, ora na força da minha imaginação. Mas de qualquer que fosse o ângulo, eram vivências que ganhavam forma nas linhas e na força do meu pensamento. Vivências embaladas no balançar da rede que rangia e se revolvia a cada empurrar do pé na parede. O pontapé cuja força lançava a rede no ar no mesmo ir e vir da minha memória em busca de mim mesma. Dos meus perdidos na estrada da vida.

Numa sucessão de imagens eu me deparo em meio àquelas minhas primeiras vivências. Reminiscências em resgate. Aquelas que dão conta de mim no meu principiar na estrada da vida. Uma sala de chão batido e uma mesa cheia de coisas. O copo e a água com sabor de carne crua. A cusparada à porta da rua. A repreensão pelo ato sem medida. Meus instantes primeiros na minha nova casa. A casa da minha infância. Do meu ser menina.  A casa cujas pessoas não se mostraram à minha memória. Como na calçada, lá também não vi pessoas. As pessoas da minha vida demoravam a entrar nas minhas lembranças. Embora sabendo que elas compunham aqueles cenários, não ganhavam forma. Embora sabendo que talvez fosse minha mãe a me repreender, dela eu não lembro. Não naquela vivência.

Mas quando a memória não dava conta, eis que a minha imaginação tomava assento. O porquê da água com sabor de carne crua. Então eu sabia. Não restavam dúvidas. Na viagem, carnes e teréns da cozinha haviam se misturado. Lembrar eu não lembro. Mas minha mãe certamente havia depenado o galinheiro e estrebuchado algum porco ou bode para se deixarem transportar sem reclames. Ou teria sido apenas o galinheiro pela ausência mesma de bichos maiores? Ou teria sido engenho de minha avó Aiá para suprir necessidades de minha mãe? Afinal, zelo de mãe é cuidado que não se acaba. Ainda mais quando sabe que há netos e netas envolvidos e envolvidas.

De tais vivências de nada eu atinava. Era menina demais para o saber. O certo é que bichos haviam sido mortos. Mortinhos da silva. Até consegui ver os olhos arregalados deles diante da atrocidade que lhes findara a vida. Arregalados sem ver. Sem sentir. Sem saber que suas vidas foram finitas antes mesmo de tomarem a estrada da mudança de casa. Até consegui ver seus corpinhos retalhados e espremidos em algum saco. Ou nalguma cesta. Um e outro disputando um lugar no jacá com as demais coisas da casa. No jacá, onde os teréns com certeza se misturaram na hora da partida. Então não era difícil saber o porquê do copo tornando a água com gosto de carne crua. Ele com certeza fora parar naquele jacá onde se juntaram tudo o quanto era coisa pequena.

Até eu própria devo ter parado lá. Imagine eles então! Retalhos de carne prontos para guloseimas como rumo mais certo. Quisera a minha sede de água que eu fosse a primeira a sentir o gosto deles. Sabor de carne crua naquele copo d’água que me ocorrera saciar a sede. Que fizera pular em seu peito a repulsa e o nojo. Mas também o agir ligeiro de despejar boca a fora. Certamente tão logo finquei os pés naquela sala de chão de terra batida. Meu primeiro ato na minha nova casa. Lembranças vagas, imagens opacas, mas bem preservadas na minha memória.

Então eu sabia. Minhas reminiscências me diziam. Aquela mesa não estava sozinha naquela sala. Havia uma bilheira ao lado da porta da rua. A porta de quem chegava e de quem saía por uma descida e subida sedimentada de pedras. Era o degrau ao qual se ligava o batente da porta. A bilheira que acomodava os potes de beber na sua base e os copos em apoios superiores. E ficava logo ali ao lado da porta que dividia os dois lados da casa. De um lado, uma pequena sala vazia seguida de um quarto de frente para o outro. Fora isso, a cozinha de onde se seguia para o quintal.

Mas então em vez do quintal meu rumo foi a porta da rua. A porta de chegada à minha casa. O mesmo vestido de outrora à mesa na ponta dos pés. Daquela porta eu olhando a cena em frente à casa. A minha nova casa. Imagens fugazes de pedras formando o batente à entrada da porta. Outras se estendendo ao longo da parede como num desejo meio acanhado de protegê-la. O terreiro que se alongava para além daquelas pedras como a proteger os arredores da casa. A rua que se estendia em seu curso meio escondida entre um mato e outro. A minha nova casa no subúrbio da cidade. Ali onde o urbano ainda não chegara.

Então eu sabia. Aquele era o meu primeiro olhar diante do meu novo mundo. Aquele que cabia todinho no limite que meus olhos alcançavam. Um mundo que colocava minha casa numa região de mato e terreno pedregoso. De horizonte limitado a um amontoado de galhos e folhas às margens do caminho. Um caminho meio íngreme cuja passagem em frente à minha casa me fazia crer que por ele não se ia muito além da porta onde naquele momento eu me encontrava.

Naquela minha pouca idade, porém, eu jamais poderia imaginar o quão longe me levaria aquele caminho. E quantas e muitas vezes ele me levaria e traria de volta sã e salva das minhas andanças pelo meu mundo afora. Ainda que no fim das contas esse mundo não passasse das minhas idas e vindas por outros caminhos não tão distantes daquele lugar. Lugar que não demoraria muito para eu chamar de meu. O meu bairro. Um bairro no subúrbio. Da mesma forma, o meu mundo não passasse das minhas idas e vindas por outras ruas e percursos da cidade que logo eu chamaria de minha. O meu mundo afora do meu caminhar e do meu viver.


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A você, meus agradecimentos!

Deus esteja com você!

Sônia Ferreira

Teresina, 02 de maio de 2021.


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domingo, 18 de abril de 2021

Meu Ser no Mundo: até onde me leva minha memória na busca de vivências

 

Imagem com a gata Maria Eugênia apresentando o conteúdo Meu Ser no Mundo: até onde vai a memória na busca de vivências?
Meu Ser no Mundo é o limite de minha memória. É lá onde param as minhas
vivências na busca de mim mesma.

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MEU SER NO MUNDO 

ATÉ ONDE ME LEVA MINHA MEMÓRIA NA BUSCA DE VIVÊNCIAS


A CALÇADA E A RUA SOB O NEVOEIRO

O dia acabara de amanhecer. Ainda se podia ver por detrás dos matagais distantes um nevoeiro pálido a definhar mais e mais. A anunciar que a noite se findava. A ceder lugar aos primeiros raios de sol que logo atravessariam ruas, becos e ruelas da cidade.  Na rua que dividia os dois lados da cidade eram os resquícios da noite que ainda se via. Uma penumbra persistente a se dispersar pelas paredes das casas e se alojar entre uma calçada e outra. Era o que restava da solidão da noite a se mostrar naquela rua que parecia tão só.

Da calçada onde eu estava eu olhava aquele irromper do dia. Mas sem me dá conta de mim mesma, O alvorecer de mais um dia da minha ainda tão tenra vida. Tentava apreender tudo o que meus olhos podiam alcançar naquele meu campo de vista ainda tão frágil. De tão pueril. Mas certamente não vislumbrava nada além do que o meu estranhamento diante daquela penumbra que atravessava o meu olhar. Aquele irromper da aurora tão meio escuro de uma manhã que não se decidia a se mostrar completa. Uma rua solitária que nenhum transeunte parecia querer enfrentar naquele instante. Aquele nevoeiro disperso que não me deixava ver as casas do outro lado da rua. As casas que hoje sei estavam lá. E nenhum daqueles raios de sol que se mostravam ao longe. Aqueles raios que pareciam não querer adentrar aquelas paragens para anunciar o novo dia com sua claridade devida.

Eu não sabia. Nem poderia saber. Minha existência ainda tão parca de nada poderia atinar. Nem mesmo da minha estada naquela calçada. Daquele momento sozinha à beira daquela rua dominada pelo silêncio. Era só o que se ouvia. De resto, só o nevoeiro que a escondia. Mas dele também de nada eu parecia dar conta. Não por mim mesma. Não naquele instante. Nem naqueles tempos. Talvez nem noutros tempos próximos ou distantes. Mas seria preciso que se corresse o tempo para que eu própria tentasse buscar as minhas respostas. Somente o tempo no seu transcorrer e as marcas em mim deixadas é que me diriam se eu daria conta ou não daquele instante. Daquela vivência que de tão frágil parecia não ir além daquele final de rua cujo nevoeiro não me deixava ver.


REMINISCÊNCIAS: EM BUSCA DA VIVÊNCIA PRIMEIRA

O tempo correu no seu curso devido. Um voo a asas largas entre o instante na calçada e aquele em que eu me encontrava naquele instante triturando os meus pensamentos. No quarto onde eu estava, somente o gemido quase inaudível do balançar da rede a me embalar. A acolher meus pensamentos. Num impulso, um socar a parede com a ponta do pé para ver a rede se lançar no ar. No outro, uma canoa a flutuar no meio do quarto. Um arco do tipo pingue-pongue com ares de bumerangue.

Aquela rede meio de frente para a janela era o meu fiel depositário de minhas reminiscências. Meu porto seguro de muitas tardes e noites. De minhas buscas de mim mesma. De minhas leituras de mundo. O mundo que parecia se acomodar aos meus olhos começava e terminava bem ali. Entre a grade da janela e o muro da divisa que me acostumara a ver pelo meu lado de dentro. A minha janela para o mundo. Como eu pensava.

Mas era o mundo que me transportava. Que me levava e trazia. Que me fazia visitar recôncavos distantes. Ainda que sob as folhas de um livro. De uma revista. De um quadrinho. O mundo que me levava a outras paragens. Como naquele momento. Eu à cata de mim mesma nas asas das minhas recordações. No voar da minha imaginação. Pouco me importava se o sol queimava lá fora. Se a lua se escondia sob as lâmpadas das ruas mal-acabadas. Se a chuva molhava o banco quebrado da praça.  Se o transeunte atravessava os buracos no asfalto. Se o gemido cortava o silêncio em prantos inaudíveis. De nada eu dava conta. Não naquele instante. Não da minha janela para o mundo.

Somente o estar comigo nas buscas de mim mesma me importava. Voltar a lugares que nem sabia quais. Mas minha memória me dizia. Lugares que eu quase nem dava conta de mim. Lá onde ficara o meu alvorecer. O início de minhas pegadas na estrada. Tão distante da minha janela para o mundo daquele momento. Mas nem foi preciso invocar à exaustão a minha memória na busca do que lá deixei.

Bastou eu abrir as portas do meu querer para as lembranças responderem aqui estamos. Carreadas na força de meus pensamentos, eis o meu mundo de vivências. Afinal, ao remexer a nossa memória, o nosso encontro não é com nós mesmos? Não é lá onde encontramos os nossos eus perdidos? Os pedaços de nós mesmos que por lá ficaram? Isolados ou em meio a outros tantos eles e elas? Lá onde nos defrontamos com os nossos monstros? Ou tecemos os fios que não se ligaram? Mas não é lá, onde encontramos as respostas do que perdemos ao longo da estrada? Não é lá, no mundo das vivências que não se mostram e das que saltam aos olhos?

Então naquele momento eu me encontrava à procura das minhas. À cata da minha aurora. Da minha vivência mais antiga. Aquela do meu principiar. O pontapé na parede levava a força de meus pensamentos. A rede revoava no ar enquanto eu mergulhava mais e mais à procura de minha parte a primeira da minha vida. Aquela que me daria ciência de mim mesma. Que eu poderia encontrar nas minhas reminiscências. Então me encontrei no prenúncio daquela manhã ainda sem sol. Naquela calçada onde intrigada eu inquiria aquela rua tão alheia ao meu olhar. Nem uma gota de pensamento a me dizer o que fazia naquela calçada àquela hora de um dia em seu nascedouro. Então a imaginação correu solta além do que a memória me trazia.

Mas pelo menos uma coisa era certa e dela eu já sabia. Não por minha memória. Não pela minha própria recordação. Mas pela de quem me contara. Aquela calçada era então apenas a divisa de onde eu vinha e para onde eu ia. Eu vinha do lugar onde até então vivera. Do torrão do meu nascimento. Então certamente eu deixava o débil vilarejo que me recebera no mundo. Talvez para nunca mais voltar. Dali a pouco eu estaria então na minha nova casa. Mas de nada disso eu dava conta. Não havia recordação naquele instante que me mostrasse um rumo qualquer. Que me fizesse saber que numa cidade distante dali eu viveria. Disso a idade da minha pequenez não dava conta nem pelo remexer da minha memória. Os outros ou as outras é que me contariam.

O que me despontava então era apenas aquele cenário turvo e esvoaçante que me lembrava uma manhã nas suas primeiras horas. Aquele momento em que quando abrimos a porta observamos o meio escuro lá fora. E vemos o despontar do amanhecer tomando o seu lugar. Afastando a penumbra da noite. Então eram cenas como aquelas o que eu via. Uma névoa esvoaçante escondendo um pequeno vulto na calçada. 

Então lá estava eu a menininha de mim mesma. Tudo muito embaçado no meu recordar. Tênue lembrança. Tanto que não me apraz afirmar aquele paradeiro. Imagino que não estivesse sozinha. Não em idade tão frágil. Não naquele mundo que se prolongava para além da calçada. Embora logo ali se findasse sob o nevoeiro espesso. De tão frágil vivência o meu recordar quase não dava conta. Talvez a minha memória estivesse perdida em meio àquele nevoeiro. Talvez o sol que nunca chegou àquelas paragens é que iluminaria o meu recordar completo.


MEU SER NO MUNDO: O ACONTECIMENTO E O CHOQUE

Minhas lembranças não me davam conta de muitas outras pessoas no meu despontar naquela calçada. Nem de poucas. Nem de uma sequer. Era eu e o mundo lá fora, restrito entre o começo e o fim daquela rua limitada por meu olhar. Eu e o meu ser no mundo no meu principiar. Mas também eu e o meu porvir. Eu e o meu despontar como gente no mundo. O meu despontar numa calçada a ermo.

Mas então naquele momento a minha janela para o mundo me dava conta de mim. Conta do meu para traz. O tanto que eu podia remoer os meus pensamentos em busca de respostas que haviam ficado. Que me revelassem os meus porquês de ser como aprendera a ser. De ver o mundo como aprendera a ver. De pensar como pensava. De entender o sentido das primeiras imagens de minha vida no meu crescimento como gente. Se teriam algum significado para o meu ser pessoa. Que significados teriam para a minha vida o fato de ter se percebido no mundo isolada de demais pessoas? Que nos importa à nossa construção como pessoas se ao nos perceber no mundo nos defrontamos com coisas ou com pessoas? Se estamos sozinhos ou em meio a multidões?

Então permaneço nas asas da minha imaginação. Seguindo caminhos nada trilhados até então. Não por mim. O pontapé na parede faz mais uma vez a rede revoar num arco flutuante no meio do quarto. No seu revoar, sigo embalada em meus pensamentos. Já não são apenas recordações. Mas também inferências que procuram ganhar formas nas mais variadas abstrações que a minha imaginação permite. Sob o meu primeiro olhar como ser no mundo, lá estão na minha memória uma calçada, uma rua e o meu próprio olhar. Imagino o estar na calçada como o estar um degrau acima de uma base. Um lugar fora da rua. Uma zona de segurança. Mas também o prolongamento de uma suposta retaguarda. Uma casa às minhas costas onde certamente estariam as pessoas que me detinham cuidados. Pessoas das quais a minha memória não dera conta.

Na primeira cena de minha vida eu me vejo então sozinha. Cena estanque. Nada de ação de continuidade. Retrato de penumbra. Assim são minhas primeiras lembranças a me revelarem o meu ser no mundo. Um fato, porém, desponta em relevância. Talvez o mais significativo. A saída da casa de minhas origens. A mudança de rumo. A criação de novos itinerários. O momento do choque. Talvez tenha sido esse o momento do meu primeiro choque na vida. Um grande choque. A mudança de casa de onde jamais saíra até então. O se perceber num lugar desconhecido. O meu primeiro acontecimento na vida. Um acontecimento de dantesca luminosidade. Não seria essa uma proeza digna de retidão por minha memória? 

Então da minha janela para o mundo eu sabia. Talvez não fosse tão menininha assim. Talvez já passassem por mim os meus quatro ou cinco anos. Mas não seria essa a idade das aprendizagens significativas? Então! Não seriam essas as imagens a me dizerem alguma coisa sobre mim? As primeiras imagens de minha vida. Uma calçada e uma rua sob intenso nevoeiro. Fora isso, o meu olhar que certamente buscava o inalcançável.

Fora isso, também, as minhas recordações e a minha imaginação se completando na compreensão de mim mesma. Diante de mim eu tinha então o visto e o não visto. O lembrado e o não lembrado. O afirmado e o negado pela memória. A ausência de pessoas nas lembranças que me revelavam como ser no mundo. Ninguém segurando minha mão. A mão de uma menina à beira da calçada meio escondida sob intenso nevoeiro. A memória negada.

Hoje eu sei. Transcorriam os primeiros anos dos mil novecentos e sessenta. Anos de repressão. Tempos de regime militar. Anos de exceção. Política de ditadura. Anos de chumbo como, anos depois, ficariam conhecidos os anos daquela política. Anos nos quais, enquanto alguns matavam ou mandavam matar, algures país a fora, eu nascia. Enquanto uns morriam e se rendiam à tortura, eu despontava no mundo. Lá pelos confins de um chão nativo embrenhado nos matos de um rincão rural de ralas provisões. Hoje eu sei.

Enquanto uns fugiam e se exilavam em terras distantes ou se rendiam a cárceres políticos em lugares afora, eu era levada para a minha nova casa. Mais do que isso o que sabia eu?  Daqueles assuntos de nada eu dava conta. Apenas atravessava a aurora de minha ainda tão tenra vida. Mas nem disso eu dava ciência. Quanto mais dos conflitos da época. As agonias do mundo não se faziam entender por tão parca idade.  Não naqueles tempos de vivências tão pueris. Importava que eu seguia para a minha nova casa. E que no meio do caminho estancara abismada numa calçada. Amedrontada, talvez. Afinal, não é próprio do desconhecido o medo?


Você acabou de conhecer mais um conteúdo do caminho Memórias de Mim.

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A você, os meus agradecimentos

Deus esteja com você!

Sônia Ferreira

Teresina, 18 de abril de 2021.


Imagem da gata Maria Eugênia convidando leitores e leitoras a se inscreverem no blog e o seguirem.
Maria Eugênia: a gata-guia do caminho Memórias de Mim.