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sexta-feira, 7 de maio de 2021

Minha mãe sob transtornos: seria o Alzheimer?

 

Imagem com a gata Felina apresentando o conteúdo “Minha mãe sob transtornos: seria o Alzheimer?”
O comportamento de minha mãe estava alterado. A cada dia ela manifestava novos modos de agir.
Eram as mesmas ações, mas muito prolongadas e se tornava agressiva quando contrariada.
É o que relato neste conteúdo. Confira!


MINHA MÃE SOB TRANSTORNOS 

SERIA O ALZHEIMER?

 

INTRODUÇÃO

Fazia pouco tempo que minha irmã me ajudava nos cuidados com a nossa mãe quando percebemos alterações no seu comportamento. Ela estava silenciosa e quieta. O seu retraimento já era percebido inclusive por pessoas que a visitavam. Ela estava menos comunicativa. Nas conversações, respondia apenas o necessário e logo voltava ao seu silêncio. Seu sorriso se tornava cada vez mais raro.  O seu jeito aconchegante e natural de ser já não era o mesmo. Estava realmente depressiva.

Então a levamos para atividades físicas num centro de convivência para pessoas idosas. Duas vezes por semana. Mesmo assim, o seu retraimento permanecia. Nesse quadro então se manifestou outro comportamento diferente: uma ação repetitiva de arrumar os tapetes por onde passava, especialmente o que ficava próximo à sua cadeira de descanso e à entrada do banheiro do seu quarto.

Em seguida, outra alteração no seu comportamento nos levou a encerrar as atividades no centro de convivência. Recuamos diante de novas ações repetitivas logo nas primeiras horas da manhã. Ela começava a agir de forma estranha ao se levantar de manhã e à noite ao se preparar para dormir. Alterações essas que passariam a se manifestar durante todo o dia de diferentes formas. Seu comportamento se alterava progressivamente. O que se iniciara com silêncio e desolação progressivos, avançava também na repetição de movimentos. Ao mesmo tempo, crescia nela a impaciência e a agressividade.

É o que veremos neste conteúdo. As alterações no comportamento de minha mãe. A evolução inicial de seus transtornos. Do ajeitar o tapete no chão ela passou a ajeitar o lençol na cama e no corpo na hora de dormir à noite e ao acordar de manhã. Ajeitar repetidamente. Confira! Espero que goste e contribua de alguma forma com você. 


AÇÕES REPETITIVAS: DO AJEITAR O TAPETE AO AJEITAR O LENÇOL

Naquela manhã, ela estava em frente à televisão em seus programas religiosos de todos os dias. Mas nada atenta a eles. Mantinha-se cabisbaixa. Desolada. Em total alheamento, deslizava continuamente a ponta da bengala no tapete sob seus pés. Uma ação que se repetia diuturnamente sempre que se mantinha sentada naquele lugar.

Dali a pouco, aquela ação se repetia com o tapete do banheiro de seu quarto. Ao passar por ele, lá se detinha de pé apoiada na porta. A cabeça declinada. O olhar fixo no chão. Embaixo, o deslizar repetitivo da ponta da bengala no tapete.  Com a mesma expressão desolada. Num silêncio de dá dó. Então eu intervinha. “Vamos, mãe, vamos. Deixe aí que eu ajeito.” Dizia eu para a tirar do seu alheamento.

Então recolhi os tapetes, embora sabendo que não eram o problema. Eram aderentes e não estavam fora de lugar. Era apenas o início de alguns transtornos que a acometiam e pelos quais passaríamos com ela em nossas ações de cuidados. Àquelas ações se somariam outras de evolução igualmente progressiva.

Numa determinada noite, observei nela outro comportamento estranho ao se deitar para dormir. Sentada à borda da cama, o seu fazer habitual se destinava às orações para em seguida se acomodar ao seu sono santo. Depois de deitada, eu concluía os ajustes finais com o apagar da luz. Naquela noite, porém, permaneceu continuamente ajeitando o lençol sobre a cama por um tempo que me chamou atenção de tão longo.

Nos dias seguintes, aquela ação se repetia. Desenvolvia a mania de arrumar incessantemente o lençol sobre a cama. Passava muito tempo alisando as bordas do lençol à procura do lado direito, acreditando estar pelo avesso. Ao tentar ajudá-la, não aceitava, dizendo que eu não sabia. Então eu só a observava naquela ação repetitiva depois de suas orações habituais. Alisava sem pressa as bordas do lençol e o dobrava e redobrava sucessivas vezes tentando a todo custo igualar as pontas uma à outra.  Repetidamente. Eu já nem tentava intervir, pois ela recusava aborrecida a minha ajuda.

Até então minha mãe era autônoma no seu preparar-se para dormir. Por isso, todas as noites eu apenas a acompanhava no seu preparo e a aguardava se deitar para poder apagar a luz. Assim eu me habituara a fazer desde que assumira os cuidados com ela. Mas então começaram aqueles transtornos e o seu acomodar-se para dormir retardava cada vez mais. Tanto que naquela noite, naquela espera, quem dormiu fui eu. Sem ver o final daquele arrumar sem fim. Ao acordar à alta hora, ela dormia declinada na lateral da cama. Descomposta. As pernas dependuradas. Sinal claro de que o sono a vencera sem que finalizasse aquela ação.

Então a acomodei à cama pela primeira vez. A primeira de sucessivas vezes, porque dali em diante ela não mais retomou às suas ações. A evolução progressiva daqueles transtornos a levaria à total perda de autonomia. Ela não conseguiria mais ajeitar o travesseiro, a vestir sua roupa, a encontrar seu próprio jeito de se acomodar na cama para dormir. Algo progredia nela comprometendo a sua saúde, mas só depois é que saberíamos: era o Alzheimer encontrando o seu caminho em nossa vida.

Comportamento semelhante àquele da noite se repetia pela manhã no seu acordar. Também de forma progressiva. Inicialmente, as orações matinais se tornaram mais longas. Ela permanecia mais tempo sentada à borda da cama. Também em torno do lençol. Mas dali a pouco já não se viam orações. Somente o colocar do lençol na cabeça em forma de véu. Num ajeitar repetitivo. Os mesmos movimentos iam e vinham sobre o lençol num ajeitar sem fim e no mais completo silêncio. Negava veementemente a minha ajuda. Dizia que tinha que ser daquele jeito.

 Naquela manhã, minha irmã chegou e me encontrou atrasada nos primeiros cuidados com a nossa mãe. Nós havíamos nos dividido nos cuidados da manhã. Nas primeiras horas, eu lhe daria a primeira refeição e as primeiras medicações. Ao chegar um pouco mais tarde, minha irmã lhe daria o banho e seguiria com os demais cuidados até o início da tarde ao finalizar seu expediente. Então eu os retomaria até o dia seguinte. Essa ordem, no entanto, alterava-se cada vez mais com as alterações no comportamento de nossa mãe.

Era o que ocorria naquele instante. Ao adentrar o quarto, minha irmã nos encontrou em frente do espelho. Nossa mãe de pé com o lençol sobre a cabeça em forma de manto. Ao seu lado, eu a observava em seus movimentos repetitivos iniciados ainda na borda da cama ao acordar. Dali passara para o espelho, onde se mantinha irredutível num alisar repetitivo das pontas do lençol sobre o corpo como se fosse um véu. O silêncio era tudo o que se ouvia dela.

Mas também observávamos certa rispidez em seu olhar e em sua fala ao reagir às nossas tentativas de ajudar. Uma agressividade crescente à medida que eu e minha irmã tentávamos tirá-la daquela situação. Nas suas recusas, eram comuns expressões do tipo: “me deixem, vocês não sabem, vão cuidar das coisas de vocês, me deixem terminar... Oh, meu Deus! Oh, meu Pai eterno!...” Assim seguia com suas exclamações. Bastante irritada por não aceitar ser contrariada.

Em tais condições, nossa rotina estava fora do lugar. Principalmente, a de cuidados. Bastante alterada. A demora de sair daquele delírio matinal retardava a sua primeira refeição e as primeiras medicações. Também o banho da manhã. Tudo cada vez mais tarde. Inclusive porque cada ação dela era carregada de prolongamentos. Ações que se alongavam além do tempo necessário e fugiam cada vez mais do nosso controle.

É o que veremos no conteúdo seguinte em relação ao seu caminhar pela casa em oração e louvores. Já não era o lençol sobre a cama nem sobre a cabeça. Mas sua religiosidade se manifestando com muita força em suas ações, que se tornavam cada vez mais incompreensíveis para nós. Confira na seção seguinte. 


CONCLUINDO...

Minha mãe com essas alterações todas em seu comportamento, mas nem de longe suspeitei que seriam indicativos de Alzheimer. Nem minha irmã. Nem ninguém entre nós. Ela não revelava perda de memória, esse conhecimento geralmente mais disseminado sobre a doença. Também não revelava o comportamento de sair de casa a ermo como eu vira se manifestar numa amiga dela. Essa amiga ficara um bom tempo sob vigília da família. Mesmo assim, de vez em quando escapava e ganhava a rua à procura da casa de amigas de outros tempos. Enfim, essa amiga com Alzheimer havia manifestado comportamentos que não verificávamos em nossa mãe.

Então as alterações de seu comportamento muito nos confundiam. Chegamos a pensar que seria outra espécie de “caduquice” diferente do Alzheimer. Mas só com o surgimento de novos comportamentos estranhos foi que atentamos para a gravidade da situação e procuramos ajuda médica. No entanto, mesmo com a medicação prescrita, não conseguimos administrá-la devido à sua negação e à falta de habilidade de nossa parte em lidar com a situação. Havíamos perdido o controle sobre ela. Estava realmente em surto e em meio a suas andanças pela casa ela caiu. Da urgência hospitalar, ela retornou devidamente medicada e controlada. Somente então assumimos o controle sobre ela e retomamos nossa rotina de cuidados.

Para saber mais sobre essa história de cuidados com amor, clique aqui.

A você, os meus agradecimentos.

Deus esteja com você!

Sônia Ferreira

Teresina, 07 de maio de 2021.

Você terminou de conhecer o primeiro conteúdo do Caminho Cuidados com Amor.

Espero que tenha gostado e acompanhe os conteúdos da sequência.


Imagem com a gata Felina convidando leitores e leitoras para se inscreverem no blog A Doideragem e o seguir.
Felina Marruá: a gata-guia dos conteúdos do caminho Cuidados com Amor deste blog A Doideragem.

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Minha mãe envelheceu e perdeu capacidades

Quando nossa mãe envelhece e exige cuidados

 

 

 

 

 

 


quinta-feira, 6 de maio de 2021

Pocota: nossa amada e cativante pequinês

 

Imagem com a gata Maria Atena apresentando a história de Pocota, uma cachorrinha pequinês de pelo alaranjado.
Esta é a história de Pocota: uma pequinês linda que nos acompanhou por muitos anos.
Não apenas companheira, também cheia de cuidados com a minha mãe.
Parecia entender as limitações dela. É o que relato neste conteúdo.


POCOTA: NOSSA AMADA E CATIVANTE PEQUINÊS

 

A CHEGADA DE POCOTA

Meu irmão Elói chegou à nossa casa num determinado fim de tarde depois de mais um dia de trabalho. Era comum sua passagem por lá tanto na saída quanto na chegada. Um hábito diário. Sempre estávamos no meio do seu caminho. Éramos a ponte do seu percurso por onde ele sempre passava. A ponte entre a sua casa e o seu destino. Sua casa ficava logo ali depois da nossa. Ou antes ou depois dependendo do ponto, se de partida ou de chegada. Viesse de onde viesse ou fosse aonde fosse, o certo é que minha mãe sempre o via chegar ou sair. Eu, raramente, pois quase sempre ou saía antes ou chegava depois da sua passagem.

Mas naquele dia eu estava em casa quando ele chegou. Consigo uma cachorrinha se deixava conduzir irresoluta presa a uma corrente. Explicou que a ganhara do senhor que lhe contratara os seus serviços de pedreiro. Era Pocota, uma pequinês na flor da idade. Linda de se vê! Daquelas que nos encantam os olhos ao primeiro olhar. De tão linda no seu jeito pequenez de ser. No seu pelo ruivo alaranjado. Imaginei então a festa que fariam Lísia e Kaliu ao se depararem com ela. Afinal, parece ser da natureza dos cachorrinhos encantarem as crianças. Lísia e Kaliu eram a filha e o filho de meu irmão que ainda não chegavam aos sete anos de idade. Então a festa com Pocota estaria garantida.

Imagem de uma cachorrinha pequinês de pelo alaranjado.
Pocota: nossa linda e amada companheira de muitos anos


Então Elói seguiu seu rumo até sua casa logo ali depois da nossa. Pocota muito serelepe no seu caminhar a um ou dois passos atrás dos dele. Parecia contente. Como eu previra, a alegria na casa não foi pouca. Pocota encontrara abrigo no coração de seus novos donos. Então apenas passamos a acompanhar à distância aquele movimento das crianças com a nova inquilina. Eu e minha mãe em visitas fugazes à casa delas.

Não demorou muito e Pocota teve sua primeira prole. Não faltou quem não quisesse um de seus filhotes. De tão lindos e fofos que eram. Mas Lísia e Kaliu cuidaram de preservar mais um na família. Cismaram que Mimoso não se desligaria de sua mãe. Afinal era lindo demais para ser levado. Fofo demais. Tudo demais. Até nome já lhe tinham dado. Então não houve outro jeito a Kécia senão aceitar Mimoso como o mais novo inquilino da casa. Kécia era a mãe de Lísia e Kaliu. Mas em se tratando de Pocota e Mimoso, sua vontade não contava. Lísia e Kaliu sempre a convenciam. Afinal, diante de cachorrinhos filhotes tão fofos qual a mãe que também não se derrete em mimos ao ver suas crianças todas derretidas por eles?

COM A FALTA DE SEGURANÇA, MIMOSO MUDA DE CASA

Certo dia, Mimoso se sentiu ofendido por Elói num de seus excessos de mal humor motivados pelo uso do álcool. Desde então ele se afastara de Elói e rapidamente se mudou para a nossa casa. Afinal, o caminho já lhe era conhecido. Bastava atravessar o quintal. Sem contar que ele já era do nosso coração. Então foi muito fácil acolhê-lo também em nossa casa. Lísia e Kaliu até que tentaram levá-lo de volta. Mas ele sempre retornava. Ele havia encontrado o seu lugar de morada. Um lugar mais acolhedor que lhe dava mais segurança. Disso ele sabia.

Então não demorou muito para Pocota também fazer da nossa casa a sua.  No início, parece que a intenção dela era levar Mimoso de volta. Chegava de mansinho e se envolvia nas brincadeiras com ele. Na hora de voltar, ela sempre retornava sozinha. Por mais que Lísia ou Kaliu insistisse, somente ela aceitava acompanhar os seus donos. Mimoso corria para dentro de casa e logo encontrava um canto para se deitar. Sinal claro de que não retornaria. Mas com o passar dos dias, era cada vez mais evidente a preferência de Pocota.  Ficar com o seu filhote. Então se instalou de vez. A antiga casa se tornou apenas o lugar das idas e vindas. Também das visitas diárias. Todos os dias passavam por lá para um alô aos seus antigos donos.

Com a mudança para nossa casa, Pocota e Mimoso revelaram que a segurança é fundamental para que se mantenham cães em casa. Ele e ela não se sentiam seguros, apesar do afeto de todos e todas de casa. Mas havia o alcoolismo de meu irmão Elói que o transformava numa pessoa outra. E no seu transformar-se, sua paciência e sentimentos de afeto desapareciam. Em seu lugar, o mal humor e a agressividade o dominavam. Em tais condições, Pocota e Mimoso eram os primeiros e os mais afetados. Então não lhes faltaram motivos para buscarem outro lugar para morar.

Essa percepção se tornou muito evidente por todo o tempo de Pocota em nossa casa. Como eu disse, era ponto de passagem de meu irmão Elói. Todos os dias. Ainda que fosse apenas para um cafezinho. Minha mãe já lhe deixava a garrafa preparada. Ele chegava e passava direto para ela. Em suas chegadas, Pocota nunca deixou de lhe querer fazer festa. Mesmo numa recepção tímida.

Mas não antes de verificar o seu estado de graça. Ou de desgraça. Então antes de se aproximar dele, ela parava e olhava insistentemente a sua face, a sua boca, o seu jeito que ela sabia ver. Nessa hora, seu rabinho tinha um jeito particular de se mover. Lento e calmamente de um lado ao outro. A evidência de seu estado de alerta.

Então eu a observava na sua vistoria. Quando via o seu rabinho se curvar entre as pernas, o seu corpinho se acanhar rumo à mesa para entrar debaixo então eu sabia. Ele havia tocado no álcool. Quando esse tocar nem perceptível para mim era, Pocota já o sabia. Aprendera no seu curto tempo de convivência com ele a ler a expressão da sua face, o movimentar da sua boca, o seu semblante talvez como o todo.

Afinal, esse aprendizado era o que lhe assegurava a sua proteção, a sua defesa, a sua conservação na casa onde vivera. Apesar de um ambiente doméstico e de estimação, ela preservava o instinto do animal que precisa conhecer o terreno onde pisa para poder se manter vivo. Agora em nossa casa, ela demonstrava preservar esse instinto de proteção e defesa. Então debaixo da mesa, o seu olhar não se desviava de Elói. Ela sabia que não apenas não podia se aproximar, como também precisava se manter alerta para uma possível defesa. Em outras condições, ela se aproximaria dele e aceitaria seus afagos com o bem-querer de quem não esquece o seu dono e lhe mantém o afeto e a fidelidade.

DE GUARDIÃ À COMPANHEIRA E CUIDADORA DE MINHA MÃE

Fora essas circunstâncias, Pocota se revelou uma ótima guardiã da casa. Também ótima companheira. Mas, principalmente, excelente cuidadora de minha mãe, zelosa e compreensiva. Como guardiã, Pocota era do tipo silenciosa; logo, muito faropotente, do tipo que pegava tudo no ar. Dentro de casa, era comum o seu narizinho arrebitado farejando o ar como a perceber algum sinal de perigo quando por nossos ouvidos nada nos alertava. Era ela quem acendia o sinal vermelho e nos deixava à espreita.

Mas sabia como ninguém usar o seu latido bravo e estridente para revelar a sua insatisfação com algum desafeto que ousava chegar à nossa casa. Era o que ocorria com o senhor X, um senhor amigo de minha mãe que costumava aparecer para um dedo de prosa com ela. Pocota não suportava o senhor X e lhe revelava isso com todos os dentes. À sua chegada eu precisava intervir para que ela não o abocanhasse. Em tal momento eu sentia a minha hipocrisia estremecer dentro de mim frente à franqueza de Pocota. Eu também não suportava o senhor X, mas o aceitava pelo aceite de minha mãe.

O senhor X era aquela pessoa que chegava à nossa casa geralmente cheio de conversas das casas por onde andava. Era uma das poucas pessoas que costumava vir conversar com minha mãe. Mas sua conversa não era nada desinteressada. Era do tipo coletor para levar aonde ia. Então eu vivia alertando a minha mãe. Ela vivia mais sozinha do que comigo ou com outros e outras. Então ele era sempre bem-vindo para ela porque teria com quem conversar.

Mas como vivia apenas em casa, o seu reportório não ia muito além dos desabafos de filhos e filhas que vez ou outra passavam para lhe participar seus reclames e alegrias da vida. Eram esses desabafos que paravam no coletor do senhor X. Por essas e outras eu preferia vê-lo pelas costas e a quilômetros de distância. Creio que era esse o sentimento que Pocota expressava em seu franco latido contra ele. Ela o reconhecia de longe e o seu faro o alcançava a longa distância. Então ecoava o alerta. Aprendi a saber de sua aproximação pela inquietação que a fazia latir com toda a sua alma canina. Não demorava muito, baixava o dito cujo. Aquele contra o qual Pocota tentava nos proteger com todos os dentes.

Mas era apenas o seu jeito pequinês e destemido de ser. Tão destemido que como companheira de minha mãe não poderia ser diferente. Talvez por isso se mostrasse tão valente assim. Passava a maior parte do tempo ao seu lado. Então era natural que a tentasse proteger de todas as formas. Ela via no senhor X uma ameaça que escapava aos nossos olhos. Tanto que ele parecia se sentir constrangido diante dela. Mesmo acomodado numa cadeira em sua conversa com minha mãe, ela não o perdia de vista.

Era esse um comportamento de Pocota tão impressionante como o seu jeito cuidador de minha mãe. Nessa área ela também se mostrava bastante aguerrida. Minha mãe já era avançada na idade. Seu caminhar lento requisitava atenção e cuidados. E Pocota parecia saber disso. Tanto que sempre que minha mãe se levantava para sair de sua poltrona, ela também o fazia. Mas em vez de tomar a dianteira, parava de lado e aguardava.

Minha mãe não entendia e retrucava: Oh, Pocota, sai do meio. Pocota apenas erguia os olhos para mamãe e permanecia no mesmo lugar com o rabinho balançando. Ela não estava no meio, mas de lado. Então eu intervinha: Mãe, ela fica de lado para a senhora poder passar. É para a senhora não tropeçar. Se desvie dela. E realmente! Ela deixava minha mãe tomar a dianteira para a seguir logo atrás. Dessa forma, não havia como minha mãe tropeçar nela. Esse risco ela não corria, pois Pocota não trafegava entre suas pernas. Ela sabia realmente como se posicionar para seguir a minha mãe.

Esse comportamento cuidadoso de Pocota eu já percebera tempos atrás em suas brincadeiras com Mimoso, ainda meio filhote. Naquele fim de tarde, minha mãe colhia acerolas no pé. De alguma forma tropeçou em Mimoso e caiu. Quando vi, ela tentava se levantar e Pocota a seu lado toda aflita. Então a ajudei. Ela retomou às suas acerolas e em seguida se dirigiu à casa de meu irmão Elói para onde as levaria. Pocota permanecia por ali brincando com Mimoso numa brincadeira de agarrar. Quando ele viu minha mãe saindo, tentou segui-la, mas Pocota o impediu bravamente.

Talvez esta tenha sido a cena mais emocionante protagonizada por Pocota. Minha mãe atravessava o quintal nos seus passos lentos rumo à casa de Elói. Mimoso tentava se desvencilhar de Pocota para a seguir. Os dois rolavam no chão. Mas Pocota conseguia dominá-lo a cada tentativa de se soltar. Seus olhos trafegavam entre o olhar a minha mãe se distanciar e o agarrar Mimoso para o manter preso. Foram várias as tentativas de Mimoso. Sempre que se soltava por um instante, Pocota o agarrava e o jogava novamente ao chão antes que se levantasse por completo. Mantinha uma de suas patinhas presas à sua boca e o impedia de se levantar e correr. Pocota somente o libertou quando minha mãe cumpriu o seu trajeto. Quando saiu do seu campo de visão ao dobrar à parede da casa para alcançar a porta principal. Quando entendeu que Mimoso já não a alcançaria e já não estaria em perigo. Então saíram os dois na mais afoita e desenfreada carreira no encalço dela até que eu os perdi igualmente de vista.

O ADEUS DE POCOTA

Pocota estava para morrer, que nem a cachorra Baleia de Fabiano.  Mas não caía o pelo. Era o seu coraçãozinho que crescia e a fazia agonizar. fazer a sua viagem sem volta. E nos deixar depois de alguns dias se despedindo.

Era uma cachorrinha bastante idosa. Desde há muito seu corpinho já demonstrava sinais de velhice. Os pelos de suas pálpebras embranqueciam. Seus olhos já não demonstravam o brilho de outrora. Passava grande parte do tempo quietinha, dormindo ou cochilando. Seu coraçãozinho estava cada vez mais frágil. Era notável o seu cansaço.

A você, meus agradecimentos pela atenção!

Deus esteja com você!

Sônia Ferreira

Teresina, 06 de maio de 2021.

Você terminou de conhecer uma história do tipo história de cães e gatos.

Espero que tenha gostado e acompanhe os conteúdos desta sequência.

Imagem com a gata Maria Atena convidando leitores e leitoras para se inscreverem no blog e o seguir.



sexta-feira, 23 de abril de 2021

Minha mãe envelheceu e perdeu capacidades: com as demandas de cuidados o apoio da família

 

Imagem com a gata Felina apresentando o conteúdo "Minha mãe envelheceu e perdeu capacidades: com as demandas de cuidados o apoio da família.
Quando nessa mãe envelhece é inevitável a necessidade de cuidados. Quando
perde capacidades, mais ainda. Muito bom quando a família cuida.
Neste conteúdo relato como nos organizamos para cuidar.

MINHA MÃE ENVELHECEU E PERDEU CAPACIDADES

COM AS DEMANDAS DE CUIDADOS O APOIO DA FAMÍLIA 

INTRODUÇÃO

Neste conteúdo descrevo o avanço do envelhecimento de minha mãe. Também a necessidade de ajuda da família em decorrência do aumento das demandas de cuidados. Relato as circunstâncias que a levaram a se restringir ao ambiente de casa. Também a se refugiar nas leituras bíblicas e em programas religiosos de televisão. Refiro-me inclusive a problema familiar que a levou à perda da alegria e à nossa tentativa de impedir algum transtorno depressivo. Uma tentativa vã.

ENVELHECIMENTO E PERDA DE CAPACIDADES: QUANDO O CORPO MOSTRA SEUS LIMITES E EXIGE CUIDADOS

Eu estava com cinquenta e um anos quando assumi os cuidados com a minha mãe. Cuidados presenciais de forma mais intensiva. Diuturnamente. Ela ainda era bastante saudável. Apesar de hipertensa. Mas seus oitenta e oito anos já revelavam o peso do seu envelhecimento. Já lhe impunham muitos limites. Já eram visíveis as dificuldades dela diante de ações as mais triviais do dia a dia. Tomar banho e se vestir sozinha já não fazia. Seu andar titubeante pedia cada vez mais minha atenção. Mesmo com o suporte do andador. Aceito a duras penas. Com bastante resistência.

Morávamos em nossa casa eu, ela e um neto seu. Ele dependente químico pelo uso de drogas. Nossa casa era então um ambiente em suspensão. Vez ou outra conflitos associados à dependência dele. Vez ou outra ela recebia visita de filhos e filhas. Às vezes de netos e netas. Amigos e amigas, raramente. Com certa frequência, a visita de legionários e legionárias da paróquia local em seus encontros missionários.

Deixara de frequentar a missa há algum tempo. Já não se sentia segura ao ir sozinha. Faltava-lhe companhia para os seus passos cada vez mais lentos e incertos. Nas suas últimas idas à missa se incomodava por não mais acompanhar os passos das companheiras no percurso. O ficar para trás era frequente. Constrangimento para ela. Então decidira não mais ir.

Desde então fizera da Rede Vida de Televisão o canal de expressão da sua fé. O seu lugar das missas e terços. Religiosamente. Todos os dias. O terço do Divino Pai Eterno. As missas em seus devidos horários. Naqueles momentos era comum vê-la de pé em frente à televisão. No meio da sala. Mãos postas para o Céu. Assim entoava seus louvores. À própria Rede Vida devotava atributos sagrados.

Continuava perdendo suas capacidades. Deixara de cuidar das plantas. Seu grande hobby. Já não conseguia se agachar.  Sempre que ia ao banheiro nem sempre chegava a tempo. Ficava constrangida e aborrecida. Resolvi a situação com um vaso portátil sempre ao seu lado. O conhecido pinico próximo às cadeiras onde ela ficava em determinados horários por mais tempo. A limitação motora era para ela um grande problema. A aceitação mais difícil.

Ainda bem que ela tinha certo apreço por leituras. Até conservava um acervo de letras sobre plantas medicinais, frutas e legumes. Com ele aprimorava o seu saber sobre os nutrientes e aprendia mais sobre sucos e chás. Uma vez ou outra chegava até mim animada para me falar de alguma de suas descobertas. 

Imagem com livros e uma faixa na qual se lê "Ainda bem que ela gostava de ler."
Os livros de minha mãe. Leituras bíblicas e nutricionais.


Mas nada como o acervo religioso para concentrar as suas leituras. Os cânticos das missas, as orações, os terços e as rezas, a Bíblia e tudo o que se referisse aos cenários do Céu. Então lhe restavam as leituras religiosas. Além da Rede Vida. Ao declinar do sol lá estava ela em nossa área jardinal. Fim de tarde. Todos os dias. Em suas leituras bíblicas. Motivo de admiração de muitos por enxergar letras tão pequenas naquela idade. Sem óculos. 

AS DEMANDAS DE CUIDADOS E A FAMÍLIA NO APOIO

As demandas de cuidados só aumentavam. Novas tarefas. Novas exigências de economia de tempo. A necessidade de ajuda logo foi inevitável. Eu não tinha empregada doméstica. Tudo era eu e eu mesma. Contratar uma seria retomar um caminho já percorrido. O mesmo que enfrentar a barreira que já se revelara intransponível para mim. Devido aos conflitos insustentáveis que geravam. Afinal, dispor de um usuário de drogas em casa fragilizava as relações. Tornava o ambiente meio campo minado. O trafegar meio movediço. Em tal meio, somente nós de casa conseguíamos nos equilibrar entre um cuidado e outro. Em tal meio, forasteiros e forasteiras não eram de esquentar assento.

Buscar ajuda entre os demais irmãos também não era algo muito animador. Apesar de sermos nove. Mas cinco entre idosos e idosas com suas próprias demandas familiares. Duas incapazes por problemas de saúde já sob cuidados de filhos e filhas. Duas morando fora do estado. Então sobrava eu própria. A única com condições efetivas para cuidar. Eu já morava com minha mãe. Era a filha que havia ficado. Não apenas para titia como se poderia pensar. Mas para cuidar. Efetivamente. E cuidei.

Titia ou não o certo mesmo foi que reafirmei a minha responsabilidade. E para valer! Por Deus naquele momento eu estava bem financeiramente. Também havia a renda da minha mãe. Então foi possível prescindir da ajuda financeira dos demais irmãos. Pelo menos naquele momento inicial de cuidados. Mas não foi possível prescindir da ajuda da família nas ações de cuidados. Combinei então com uma de minhas irmãs arrimo de sua família. Ela sairia do emprego. Eu a compensaria com o salário correspondente. Melhor para a nossa mãe ser cuidada por familiares do que por pessoas estranhas. Alheias ao seu convívio. Assim foi.

Minha irmã reunia melhores condições de conviver conosco. Afinal, o conviver em nossa casa era um desafio e tanto! Mas não para qualquer um ou uma. Mas o seria para ela que o aceitara. Ela comparecia todas as manhãs. Exceto aos domingos e feriados. Cumpria seis horas diárias. Eu o restante. Nós nos dividíamos entre as tarefas de casa e as ações de cuidados com a nossa mãe.  

A situação parecia sob controle. Fazia pouco tempo que minha irmã começara a me ajudar. Aos poucos íamos nos ajustando às necessidades de nossa mãe. Fazendo e aprendendo. Em nós a compreensão de que as limitações dela eram coisas próprias da idade. Afinal, ela havia perdido muitas capacidades. Já não andava sem o suporte da bengala ou do andador. Também a dificuldade nas ações simples do dia a dia como o se levantar e o se vestir. Ações essas que já não fazia sem ajuda. Como eu já disse. Aceitar a perda da autonomia no andar não lhe fora fácil. Tanto que resistira à bengala o quanto pode. Mas tudo isso nos parecia aceito por ela. Então o que tínhamos a fazer era nos ajustar às suas necessidades para melhor poder lhe atender.

Mas logo percebemos nossa mãe meio silenciosa. Contrariando o seu jeito comunicativo de ser. O seu humor já não era o mesmo. Era visível o seu retraimento. Já não se interessava pela conversação. Estava quieta. Calada. Olhar distante. Mas sabíamos que não apenas pelo desconforto com as limitações do seu corpo. Mas algo muito mais profundo fragilizava suas emoções. Feria sua alma.  A denúncia que eu registrara a seu pedido a um órgão de proteção à pessoa idosa. A denúncia contra o neto. Os problemas com ele motivados pelo uso da droga eram cada vez mais insustentáveis. O órgão foi até ele. Comunicou-lhe a denúncia e lhe advertiu acerca das medidas cabíveis de proteção. Ele então se voltou para minha mãe na posição de vítima. Cobrou-lhe explicações. Naquele momento na sala onde estavam era apenas a avó e o neto por ele mesmo. Ela com seus sentimentos. Toda afeição. Ele, o neto de seus cuidados.  O número um desprovido de quaisquer potências químicas.

Aquela situação causou em minha mãe um remorso. Uma avalanche na alma. Desde então seu semblante parecia não encontrar nada fora do chão. De tão caído estava. Ela não conseguia conter as lágrimas ao se referir ao neto. Chorava mesmo. Penalizada. Suas leituras bíblicas de todas as tardes já não eram as mesmas. Já não lia. Apenas folheava a Bíblia. Sem se fixar à página alguma. Seu olhar se tornara distante. Sem foco. Numa expressão desolada. Então a levamos a um centro de convivência para idosos. Atividades físicas poderiam lhe fazer bem. Relações com outras pessoas também. Assim supúnhamos.

Mas estávamos enganadas. Ela não passou das primeiras sessões. Percebemos que as alterações em seu comportamento avançavam. Não por conta das atividades. Mas por razões que não mais entendíamos. Suas ações se tornavam cada vez mais estranhas. Um mal humor que beirava à agressividade. Ela contrariava então cada vez mais o seu jeito natural de ser. Tolerante e compassivo. Já não era somente a tristeza ou o remorso em relação ao neto. Tampouco o desconforto com suas limitações. Mas não demorou muito e soubemos que talvez fosse o Alzheimer se instalando nela. Mas só depois é que saberíamos que realmente era o Alzheimer que encontrara abrigo na vida dela. 

CONCLUINDO...

Nos conteúdos deste caminho, continuarei relatando esse processo que se desencadeava em minha mãe e culminaria com o Alzheimer diagnosticado. Depois de alterações progressivas em seu comportamento, ela evoluiu para um surto a partir do qual me tornei sua curadora. Além da cuidadora que era.

A você, os meus agradecimentos

Deus esteja com você!

 Sônia Ferreira

Teresina, 23 de abril de 2021.


Você terminou de conhecer mais um conteúdo do Caminho Cuidados com Amor.

Espero que tenha gostado e acompanhe os conteúdos da sequência.


Imagem com a gata Felina convidando leitores e leitoras para se inscreverem no blog e o seguir.
Felina Marruá: a guia deste caminho Cuidados com Amor.

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